POUCO depois da publicação do romance "O Zahir", o hotel parisiense Bristol rebatizou uma de suas iguarias com o nome "Chocolate quente de Paulo Coelho", em retribuição ao fato de o escritor ter ambientado ali uma das cenas do livro.
A homenagem seria seguida por um restaurante de Marrakech, no Marrocos, que incluiu em seu cardápio o "cuscuz à Paulo Coelho".
Essas celebrações gastronômicas, porém, são risíveis perto do reconhecimento pecuniário do emir de Dubai, que, em 2007, presenteou o autor de "O Alquimista" com uma mansão no valor de US$ 4,5 milhões -dádivas semelhantes contemplariam Pelé, o jogador David Beckham e o piloto Michael Schumacher.
Fatos como estes, relatados na biografia "O Mago", de Fernando Morais, não deixam dúvida: Paulo Coelho não é apenas um fenômeno editorial que suplantou Jorge Amado como escritor brasileiro mais conhecido no mundo; ele é o único escritor de qualquer língua a atingir celebridade planetária.
Morais não busca as razões literárias dessa consagração. Seu enfoque é a obstinação de um jovem que desde muito cedo queria se tornar escritor -a ponto de ter se empenhado mais na construção da imagem de iluminado do que na produção de uma obra. O biógrafo teve acesso a um baú contendo 40 anos de diários e gravações. Num dos trechos, Paulo Coelho escreve: "Sou um guerreiro aguardando sua hora de entrar decisivamente em cena (...) e minha sina é o sucesso. Meu grande talento é lutar por ele".
Até agora, Paulo Coelho era mais conhecido como o parceiro de Raul Seixas, o maluco beleza envolvido em seitas satânicas, que percorreu o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e conquistou o estrelato com a publicação de "Diário de um Mago".
Agora, sobe ao palco um personagem que, em meio a promiscuidade, drogas, internação em manicômios (com direito a tratamento por eletrochoque) e prisões sob suspeita (infundada) de envolvimento com grupos terroristas durante o regime militar, orquestrou o sucesso com o calculismo de um administrador de empresas.
A parte mais envolvente do livro corresponde aos anos de formação, marcados pelo fantasma de algumas culpas -como a omissão de socorro após atropelar um garoto ou aquela que considera sua maior covardia: ter se calado quando sua namorada implorava que ele a reconhecesse diante de torturadores do DOI-Codi.
Experiências homossexuais na juventude ou o curioso plágio de um texto de Carlos Heitor Cony (assinado fraudulentamente para um jornal de Aracaju) são momentos de desbunde que preparam a grande virada: uma visita ao campo de concentração nazista de Dachau, durante a qual teve a visão de um facho de luz que indicaria sua "trajetória mágica". "
Morais afirma que o "escritor Paulo Coelho" nasceu naquele dia de fevereiro de 1982. Sua obra propriamente dita só teria início em 1987, com "O Diário de um Mago" -e, com ela, aquilo que ele descreve como "esquartejamento público" do escritor por uma crítica até hoje atônita com seu sucesso.
Para os leitores menos crédulos, as supostas faculdades paranormais de Coelho sempre soaram como um hábil exercício de mistificação. Morais nos mostra, porém, um autor cuja religiosidade e obsessão de ver "sinais" a todo momento parecem autênticas.
Isso certamente não convalida o esoterismo e as lições espiritualistas de seus romances, mas confere complexidade à figura do escritor.
Em resumo, o protagonista de Fernando Morais em "O Mago" talvez seja mais interessante do que qualquer personagem de Paulo Coelho.
O texto foi escrito por Manuel da Costa Pinto, no jornal literário virtual Verdes Trigos, de 3 de junho.
terça-feira, 3 de junho de 2008
sexta-feira, 30 de maio de 2008
EVENTO LITERÁRIO NO ESPAÇO SESC
Oi, pessoal.
Uma leitora e escritora de mini e microcontos, a Ângela Schnoor, muito simpaticamente está convidando os alunos e não-alunos da Estação das Letras para um evento literário com palestras e uma oficina a serem realizados no Espaço SESC, dias 12, 13 e 14 de junho, e contará com a presença de escritores do Rio Grande do Sul.
Vou pegar o folder na Estação, depois acrescentarei os detalhes. É só para vocês irem se programando.
O Blog da Ângela é bem bacana, dêem uma olhada:
http://.microargumentos.blogspot/
Uma leitora e escritora de mini e microcontos, a Ângela Schnoor, muito simpaticamente está convidando os alunos e não-alunos da Estação das Letras para um evento literário com palestras e uma oficina a serem realizados no Espaço SESC, dias 12, 13 e 14 de junho, e contará com a presença de escritores do Rio Grande do Sul.
Vou pegar o folder na Estação, depois acrescentarei os detalhes. É só para vocês irem se programando.
O Blog da Ângela é bem bacana, dêem uma olhada:
http://.microargumentos.blogspot/
sábado, 24 de maio de 2008
QUEM LÊ POESIA É MAIS INTELIGENTE
Mais uma contribuição!
Desta vez quem mandou foi a poeta Maju Costa, grande amiga da Estação das Letras, e pelo tom do texto, se vocês toparem, começaremos uma discussão virtual com seus comentários.
Concordo plenamente com o Rodrigo, já na primeira frase. Não é um qualquer que saiba como flutuar nos versos de uma poesia, que queira ser invadido por ela. Uma poesia pode ter uma estética perfeita, ou te dar um soco, pode te elevar às nuvens, ou pode fazer com que você desça uma escada bem longa, até aquele lugar que você guarda escondido...
Por Rodrigo Capella*
O leitor de poesia não é qualquer leitor. Ele é, na grande maioria das vezes, bem mais inteligente e sensitivo do que o leitor de prosa. Ler obras com começo, meio e fim é muito fácil e chega a dar tédio. O difícil e atraente é captar a essência, o dinamismo e o significado dos versos, compostos por diversas sintonias e linguagens. Tudo isso faz do leitor de poesia um leitor mais exigente e participativo.
Não é raro ele ser o primeiro a perguntar e questionar determinada questão que está sendo debatida em um evento literário. Não é raro também ele se levantar, ir na frente de todos e ler um pequeno verso que escreveu. O leitor de poesia é, portanto, um poeta, enrustido ou consciente, mas ele é um poeta. Um ser apaixonado por poesia e flexível aos movimentos contemporâneos.
Diferente do leitor de prosa, ele consegue enxergar tendências, captar informações únicas e vivenciar momentos puros. O leitor de poesia também é um grande escritor. Machado de Assis, Hilda Hilst e o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, por exemplo, leram, escreveram e publicaram poesia, poesia de boa qualidade.
Machado lançou cinco livros do gênero. “Crisálidas” em 1864, seguido por Falenas (1870), Americanas (1875), Ocidentais (1880) e o excelente “Poesias Completas” (1901), que deveria ser lido por todo brasileiro poeta. Já Conan Doyle, lançou em 1898 “Songs of Action”. Depois vieram “Songs of the Road” (1911), “The Guards Came Through and Other Poems” (1919) e “The Poems of Arthur” (1922), títulos sem tradução para o português. Hilda Hilst superou os dois escritores ao apresentar aos seus leitores mais de vinte livros de poesia. Destacam-se “Do Desejo”, de 1992, e “Do Amor”, publicado sete anos depois, que apresentam uma métrica bem inovadora.
O leitor de poesia é um leitor exigente, que entra em contato com o poeta para questionar, dialogar e propor, exercendo a democracia, que está fortemente enraizada no conceito poético. Freqüentemente, passo por experiências desse tipo em eventos literários e debates sobre meu último livro, “Poesia não vende”. Leitores de várias partes do Brasil perguntam, enviam e-mails e querem saber de tudo. Percebi, nesses momentos, que o leitor de poesia é um leitor fiel as suas convicções, as suas idéias e paradigmas.
Dificilmente, muda de idéia. Na verdade, ele é um leitor fiel á própria poesia e ouvir que “poesia não vende” não é nada agradável. Mas, o poeta tem como função romper paradigmas. Então, é comum o leitor e o próprio poeta entrarem em contradição. Essa é a essência da poesia, essa é a essência da vida. O leitor de poesia é também um leitor sincero e transparente. Aplaude quando gosta de um trabalho, questiona quando se sente atordoado e lamenta quando suas expectativas não foram atingidas. É um leitor que odeia marketing, não gosta das superexposições de livros e foge das obras mais vendidas.
Ele quer novidades, quer descobrir novos poetas e quer compartilhar os seus momentos com poesias naturais, que não apresentem conceitos e idéias pré-concebidas pelo mercado editorial. Tudo isso faz do leitor de poesia um verdadeiro revolucionário, que não tem medo de sair ás ruas, ler boa poesia e promover encontros, a base de vinhos, palavras e sugestões. O leitor de poesia não teme o amanhã, sabe, aliás, que precisa ser parceiro do futuro e, que junto com ele, pode valorizar a poesia. O leitor de poesia não teme lutar contra a maré, não teme enfrentar o mercado editorial, não teme as conseqüências da valorização da poesia.
Aliás, luta por isso a todo instante, a cada dia, como se esse fosse um objetivo de vida, a principal das conquistas. Sabe que enfrenta obstáculos diários, tem consciência de que essa é uma luta sem fim e sem retorno imediato. Mas, sabe também que tudo tem um começo, tudo precisa de poesia. É graças a esses sentimentos e a esses leitores que a poesia persiste e vive, livre, leve e solta, em busca de patamares mais altos, de representatividade e, principalmente, de público, fiel ou não, adeptos ou não, poetas ou não.
O que importa é que a poesia seja lida, como se fazia antigamente nos bares, lares e escolas.
(*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles "Poesia não vende" e "Transroca, o navio proibido", que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor gaúcho Ricardo Zimmer.
Desta vez quem mandou foi a poeta Maju Costa, grande amiga da Estação das Letras, e pelo tom do texto, se vocês toparem, começaremos uma discussão virtual com seus comentários.
Concordo plenamente com o Rodrigo, já na primeira frase. Não é um qualquer que saiba como flutuar nos versos de uma poesia, que queira ser invadido por ela. Uma poesia pode ter uma estética perfeita, ou te dar um soco, pode te elevar às nuvens, ou pode fazer com que você desça uma escada bem longa, até aquele lugar que você guarda escondido...
Por Rodrigo Capella*
O leitor de poesia não é qualquer leitor. Ele é, na grande maioria das vezes, bem mais inteligente e sensitivo do que o leitor de prosa. Ler obras com começo, meio e fim é muito fácil e chega a dar tédio. O difícil e atraente é captar a essência, o dinamismo e o significado dos versos, compostos por diversas sintonias e linguagens. Tudo isso faz do leitor de poesia um leitor mais exigente e participativo.
Não é raro ele ser o primeiro a perguntar e questionar determinada questão que está sendo debatida em um evento literário. Não é raro também ele se levantar, ir na frente de todos e ler um pequeno verso que escreveu. O leitor de poesia é, portanto, um poeta, enrustido ou consciente, mas ele é um poeta. Um ser apaixonado por poesia e flexível aos movimentos contemporâneos.
Diferente do leitor de prosa, ele consegue enxergar tendências, captar informações únicas e vivenciar momentos puros. O leitor de poesia também é um grande escritor. Machado de Assis, Hilda Hilst e o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, por exemplo, leram, escreveram e publicaram poesia, poesia de boa qualidade.
Machado lançou cinco livros do gênero. “Crisálidas” em 1864, seguido por Falenas (1870), Americanas (1875), Ocidentais (1880) e o excelente “Poesias Completas” (1901), que deveria ser lido por todo brasileiro poeta. Já Conan Doyle, lançou em 1898 “Songs of Action”. Depois vieram “Songs of the Road” (1911), “The Guards Came Through and Other Poems” (1919) e “The Poems of Arthur” (1922), títulos sem tradução para o português. Hilda Hilst superou os dois escritores ao apresentar aos seus leitores mais de vinte livros de poesia. Destacam-se “Do Desejo”, de 1992, e “Do Amor”, publicado sete anos depois, que apresentam uma métrica bem inovadora.
O leitor de poesia é um leitor exigente, que entra em contato com o poeta para questionar, dialogar e propor, exercendo a democracia, que está fortemente enraizada no conceito poético. Freqüentemente, passo por experiências desse tipo em eventos literários e debates sobre meu último livro, “Poesia não vende”. Leitores de várias partes do Brasil perguntam, enviam e-mails e querem saber de tudo. Percebi, nesses momentos, que o leitor de poesia é um leitor fiel as suas convicções, as suas idéias e paradigmas.
Dificilmente, muda de idéia. Na verdade, ele é um leitor fiel á própria poesia e ouvir que “poesia não vende” não é nada agradável. Mas, o poeta tem como função romper paradigmas. Então, é comum o leitor e o próprio poeta entrarem em contradição. Essa é a essência da poesia, essa é a essência da vida. O leitor de poesia é também um leitor sincero e transparente. Aplaude quando gosta de um trabalho, questiona quando se sente atordoado e lamenta quando suas expectativas não foram atingidas. É um leitor que odeia marketing, não gosta das superexposições de livros e foge das obras mais vendidas.
Ele quer novidades, quer descobrir novos poetas e quer compartilhar os seus momentos com poesias naturais, que não apresentem conceitos e idéias pré-concebidas pelo mercado editorial. Tudo isso faz do leitor de poesia um verdadeiro revolucionário, que não tem medo de sair ás ruas, ler boa poesia e promover encontros, a base de vinhos, palavras e sugestões. O leitor de poesia não teme o amanhã, sabe, aliás, que precisa ser parceiro do futuro e, que junto com ele, pode valorizar a poesia. O leitor de poesia não teme lutar contra a maré, não teme enfrentar o mercado editorial, não teme as conseqüências da valorização da poesia.
Aliás, luta por isso a todo instante, a cada dia, como se esse fosse um objetivo de vida, a principal das conquistas. Sabe que enfrenta obstáculos diários, tem consciência de que essa é uma luta sem fim e sem retorno imediato. Mas, sabe também que tudo tem um começo, tudo precisa de poesia. É graças a esses sentimentos e a esses leitores que a poesia persiste e vive, livre, leve e solta, em busca de patamares mais altos, de representatividade e, principalmente, de público, fiel ou não, adeptos ou não, poetas ou não.
O que importa é que a poesia seja lida, como se fazia antigamente nos bares, lares e escolas.
(*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles "Poesia não vende" e "Transroca, o navio proibido", que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor gaúcho Ricardo Zimmer.
domingo, 18 de maio de 2008
Marlene Lima, prestes a publicar seu primeiro livro de contos, manda a 1a. colaboração ao nosso blog. Pinçou da revista "Falando de Literatura"
"Não use palavras muito grandes no texto. Não diga 'infinitamente' quando você querdizer 'muito'. De outra forma, não lhe restarão palavras quando quiser falar sobre algo realmente infinito."
C.S. LEWIS
"Depois de ser rejeitado por várias editoras, ele decidiu escrever para a posteridade."
GEORGE ADE
"A arte não é só talento, mas sobretudo coragem."
GLAUBER ROCHA
"Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que poesia está contida nisso tudo."
DRUMMOND
"Não use palavras muito grandes no texto. Não diga 'infinitamente' quando você querdizer 'muito'. De outra forma, não lhe restarão palavras quando quiser falar sobre algo realmente infinito."
C.S. LEWIS
"Depois de ser rejeitado por várias editoras, ele decidiu escrever para a posteridade."
GEORGE ADE
"A arte não é só talento, mas sobretudo coragem."
GLAUBER ROCHA
"Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que poesia está contida nisso tudo."
DRUMMOND
sexta-feira, 16 de maio de 2008
A VOZ DO ESCRITOR
"Minha linguagem é uma prostituta universal que eu tenho que transformar numa virgem" - KARL KRAUSS
Uma vez SAMUEL BECKETT, o mais austero dos escritores, comparou "escrever com estilo, essa vaidade...a uma gravata-borboleta em volta de uma garganta com câncer".
"Quando lemos Freud, escutamos um homem brilhante exibindo para nós todo o poder de sua mente. Ao comparar o ato de escrever à psicanálise, estou implicitamente afirmando que para um indivíduo encontrar sua voz própria como escritor, em determinados aspectos é como o caprichoso processo de se tornar adulto" ALFRED ALVAREZ.
"O caos, numa obra de arte, deve cintilar através do véu da ordem." NOVALIS
"Comecei o exercício terapêutico de expurgar da minha mente todos aqueles demônios aprisionados que aguardavam convocação para vir à tona." RALPH STEADMAN
A FIDELIDADE DAS COISAS
"A poesia de Zbigniew Herbert acrescenta à biografia da civilização a sensibilidade de um homem que não foi derrotado pelo século que empreendeu, da forma mais completa e eficiente, a desumanização da espécie humana.
A ironia de Herbert, sua discrição austera e sua compaixão, a lucidez de seu lirismo, a intensidade de seu amor pela antiguidade clássica, não são apenas ornamentos exibidos por um poeta moderno, e sim a armadura - no seu caso, de aço bem temperado e reluzente - de que um homem precisa para não ser esmagado pelas investidas da realidade.
Como não oferece a seus leitores concessões estéticas nem éticas, esse poeta os salva daquela pobreza que não serve tão bem a todas as formas do mal." JOSEPH BRODSKY
PEDRA
A pedra
é uma criatura perfeita
igual a si mesma
percebe seus limites
é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra
seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita
seu ardor e frieza
são justos e dignos
sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor
- Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.
OBJETOS
Os objetos inanimados são sempre corretos e,
infelizmente, não se pode censurá-los por nada.
Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um
pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre
as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando
cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfio
que os objetos ajam assim com intenção
pedagógica, a fim de nos reprovar constantemente
por nossa instabilidade.
NO ARMÁRIO
Sempre desconfiei que a cidade fosse uma
falsificação. Mas só numa tarde nevoenta
no início da primavera, quando o ar cheira
a amido, que descobri a natureza da fraude.
Vivemos dentro de um armário, nas mais abissais
profundezas do olvido, em meio a varas quebradas
e caixas fechadas. Seis paredes pardas, as nuvens-
pernas de calças acima de nossas cabeças, e o que
até ainda há pouco julgávamos ser uma catedral
mas na verdade é apenas um sombrio frasco de
perfume evaporado.
Ó pobres noites, em que rezamos à passagem de
uma mariposa-cometa.
SUICÍDIO
Ele era muito teatral. Colocou-se diante do
espelho com um terno preto e uma flor na lapela.
Levou a arma até a boca, esperou até que o
tambor esquentasse e, olhando para seu reflexo
com um sorriso alheado, puxou o gatilho.
Caiu como um paletó lançado dos ombros, mas
a alma continuou em pé por algum tempo,
sacudindo a cabeça, cada vez mais leve. Então,
com relutância, ela penetrou no corpo, sangrento
na extremidade superior, no momento em que
sua temperatura estava caindo para o nível
térmico de um objeto, o qual - como sabemos -
é sinal de longevidade.
O texto do Brodsky e as poesias transcrevi da revista Piauí deste mês, pois achei-as de uma beleza espantosa, assustadora. Há outras igualmente tocantes.
A ironia de Herbert, sua discrição austera e sua compaixão, a lucidez de seu lirismo, a intensidade de seu amor pela antiguidade clássica, não são apenas ornamentos exibidos por um poeta moderno, e sim a armadura - no seu caso, de aço bem temperado e reluzente - de que um homem precisa para não ser esmagado pelas investidas da realidade.
Como não oferece a seus leitores concessões estéticas nem éticas, esse poeta os salva daquela pobreza que não serve tão bem a todas as formas do mal." JOSEPH BRODSKY
PEDRA
A pedra
é uma criatura perfeita
igual a si mesma
percebe seus limites
é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra
seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita
seu ardor e frieza
são justos e dignos
sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor
- Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.
OBJETOS
Os objetos inanimados são sempre corretos e,
infelizmente, não se pode censurá-los por nada.
Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um
pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre
as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando
cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfio
que os objetos ajam assim com intenção
pedagógica, a fim de nos reprovar constantemente
por nossa instabilidade.
NO ARMÁRIO
Sempre desconfiei que a cidade fosse uma
falsificação. Mas só numa tarde nevoenta
no início da primavera, quando o ar cheira
a amido, que descobri a natureza da fraude.
Vivemos dentro de um armário, nas mais abissais
profundezas do olvido, em meio a varas quebradas
e caixas fechadas. Seis paredes pardas, as nuvens-
pernas de calças acima de nossas cabeças, e o que
até ainda há pouco julgávamos ser uma catedral
mas na verdade é apenas um sombrio frasco de
perfume evaporado.
Ó pobres noites, em que rezamos à passagem de
uma mariposa-cometa.
SUICÍDIO
Ele era muito teatral. Colocou-se diante do
espelho com um terno preto e uma flor na lapela.
Levou a arma até a boca, esperou até que o
tambor esquentasse e, olhando para seu reflexo
com um sorriso alheado, puxou o gatilho.
Caiu como um paletó lançado dos ombros, mas
a alma continuou em pé por algum tempo,
sacudindo a cabeça, cada vez mais leve. Então,
com relutância, ela penetrou no corpo, sangrento
na extremidade superior, no momento em que
sua temperatura estava caindo para o nível
térmico de um objeto, o qual - como sabemos -
é sinal de longevidade.
O texto do Brodsky e as poesias transcrevi da revista Piauí deste mês, pois achei-as de uma beleza espantosa, assustadora. Há outras igualmente tocantes.
domingo, 4 de maio de 2008
Tataraneto do Tolstoi mora aqui no Rio!
Pai, filho. Avô, neto. Bisavô, bisneto. Tataravô, tataraneto. A família anda tão desfragmentada... mas isso ainda existe.
Não é mentira, Vassia Tolstoi nasceu em Paris, e sua ascendência é russa e nobre, pois é tataraneto do conde Lev Tolstoi, autor de “Guerra e paz”, “Anna Karenina”, “A morte de Ivan Ilyich”, “A sonata Kreutzer”, etc.
Veio passar dois meses, está há dois anos, e aqui conheceu a carioca Daniela na pizzaria Guanabara às cinco da manhã, coisas de amor à primeira vista. Resumindo: casaram-se ao som de Clara Nunes em Santa Tereza. Moram entre o morro do Vidigal e a favela Chácara do Céu (subindo quatro lances de escada) numa casa avarandada bem no meio do mato. Querem mais? Tem um Fusca 70.
“O dinheiro representa uma nova forma de escravidão impessoal, em lugar da antiga escravidão pessoal” - frase do Conde num de seus contos, ”O dinheiro”- que resume a postura do tataraneto concernente a valores, certamente herdados da família.
Sua origem nobre vem com a czarina Catarina, que sobe ao trono com o apoio de Tolstoi. Por causa deste detalhe recebe dela o título de conde, um marco na vida do escritor. O título passou de Lev ao filho Nicholas, (bisavô de Vassia) poeta e músico cujo filho médico, Serge, foge para a França durante a revolução russa, e em Paris nasce o pai do rapaz de 31 anos , morador do Rio.
Vassia nunca trocou a amizade dos amigos plebeus pelo que restou da aristocracia européia com suas festas vips. Mesmo aqui, prefere “um samba na Mangueira do que beber champagne numa mansão no Leblon”. Herança do tataravô? Possivelmente, e foi assim desde criança. Só tomou consciência de sua origem aos catorze anos quando fez bagunça na aula de geografia. Como castigo a professora mandou que fizesse na semana seguinte um seminário sobre sua família, e aí a ficha caiu.
Foi à Rússia a primeira vez depois da queda do muro de Berlim, e levou um choque quando leu no jornal que estava no país. “Se te vêem apenas como um descendente de Lev Tolstoi, você não é ninguém”, disse.
Trabalhou como DJ, fotógrafo, quando “tinha contato com pessoas histéricas e estúpidas, com modelos anoréxicas tratadas como lixo, um drama, isso só para vender roupas”. Aí largou tudo: o dinheiro, as belas mulheres, a moda. Cansado de trabalhar como um louco, viajou para conhecer os parentes da mãe uruguaia, depois veio ao Rio, onde foi ficando. Como fotógrafo da Paris Match , tem um projeto próprio: publicar os retratos dos 700 freqüentadores do posto 9, em Ipanema, clicados num estúdio improvisado na praia, dentro da barraca de um vendedor de cerveja!
Por que esta matéria aqui? Primeiro, o cara é descendente de um gênio escritor, segundo, os tempos são outros, mas ele optou por ser ele próprio, optou por viver de acordo com os seus valores, renunciando a outros.
Isto é algum exemplo? É. Pois para escrever – um exercício solitário – você renuncia a muitas coisas, além de ler e ler e ler para se impregnar de boa Literatura, ou da má também, se tiver tempo. Escrever é cortar, para ir ao âmago da escrita.
Claro que há outros exemplos mais edificantes, mas este é sui-generis, um aristocrata que renuncia a Dior e batuca Martinho da Vila, pois foi batucando com dois talheres "Rosa do povo", de Martinho, que ele recebeu o repórter da Piauí, revista de onde veio este resumo.
Não é mentira, Vassia Tolstoi nasceu em Paris, e sua ascendência é russa e nobre, pois é tataraneto do conde Lev Tolstoi, autor de “Guerra e paz”, “Anna Karenina”, “A morte de Ivan Ilyich”, “A sonata Kreutzer”, etc.
Veio passar dois meses, está há dois anos, e aqui conheceu a carioca Daniela na pizzaria Guanabara às cinco da manhã, coisas de amor à primeira vista. Resumindo: casaram-se ao som de Clara Nunes em Santa Tereza. Moram entre o morro do Vidigal e a favela Chácara do Céu (subindo quatro lances de escada) numa casa avarandada bem no meio do mato. Querem mais? Tem um Fusca 70.
“O dinheiro representa uma nova forma de escravidão impessoal, em lugar da antiga escravidão pessoal” - frase do Conde num de seus contos, ”O dinheiro”- que resume a postura do tataraneto concernente a valores, certamente herdados da família.
Sua origem nobre vem com a czarina Catarina, que sobe ao trono com o apoio de Tolstoi. Por causa deste detalhe recebe dela o título de conde, um marco na vida do escritor. O título passou de Lev ao filho Nicholas, (bisavô de Vassia) poeta e músico cujo filho médico, Serge, foge para a França durante a revolução russa, e em Paris nasce o pai do rapaz de 31 anos , morador do Rio.
Vassia nunca trocou a amizade dos amigos plebeus pelo que restou da aristocracia européia com suas festas vips. Mesmo aqui, prefere “um samba na Mangueira do que beber champagne numa mansão no Leblon”. Herança do tataravô? Possivelmente, e foi assim desde criança. Só tomou consciência de sua origem aos catorze anos quando fez bagunça na aula de geografia. Como castigo a professora mandou que fizesse na semana seguinte um seminário sobre sua família, e aí a ficha caiu.
Foi à Rússia a primeira vez depois da queda do muro de Berlim, e levou um choque quando leu no jornal que estava no país. “Se te vêem apenas como um descendente de Lev Tolstoi, você não é ninguém”, disse.
Trabalhou como DJ, fotógrafo, quando “tinha contato com pessoas histéricas e estúpidas, com modelos anoréxicas tratadas como lixo, um drama, isso só para vender roupas”. Aí largou tudo: o dinheiro, as belas mulheres, a moda. Cansado de trabalhar como um louco, viajou para conhecer os parentes da mãe uruguaia, depois veio ao Rio, onde foi ficando. Como fotógrafo da Paris Match , tem um projeto próprio: publicar os retratos dos 700 freqüentadores do posto 9, em Ipanema, clicados num estúdio improvisado na praia, dentro da barraca de um vendedor de cerveja!
Por que esta matéria aqui? Primeiro, o cara é descendente de um gênio escritor, segundo, os tempos são outros, mas ele optou por ser ele próprio, optou por viver de acordo com os seus valores, renunciando a outros.
Isto é algum exemplo? É. Pois para escrever – um exercício solitário – você renuncia a muitas coisas, além de ler e ler e ler para se impregnar de boa Literatura, ou da má também, se tiver tempo. Escrever é cortar, para ir ao âmago da escrita.
Claro que há outros exemplos mais edificantes, mas este é sui-generis, um aristocrata que renuncia a Dior e batuca Martinho da Vila, pois foi batucando com dois talheres "Rosa do povo", de Martinho, que ele recebeu o repórter da Piauí, revista de onde veio este resumo.
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