sábado, 24 de maio de 2008

QUEM LÊ POESIA É MAIS INTELIGENTE

Mais uma contribuição!
Desta vez quem mandou foi a poeta Maju Costa, grande amiga da Estação das Letras, e pelo tom do texto, se vocês toparem, começaremos uma discussão virtual com seus comentários.
Concordo plenamente com o Rodrigo, já na primeira frase. Não é um qualquer que saiba como flutuar nos versos de uma poesia, que queira ser invadido por ela. Uma poesia pode ter uma estética perfeita, ou te dar um soco, pode te elevar às nuvens, ou pode fazer com que você desça uma escada bem longa, até aquele lugar que você guarda escondido...


Por Rodrigo Capella*

O leitor de poesia não é qualquer leitor. Ele é, na grande maioria das vezes, bem mais inteligente e sensitivo do que o leitor de prosa. Ler obras com começo, meio e fim é muito fácil e chega a dar tédio. O difícil e atraente é captar a essência, o dinamismo e o significado dos versos, compostos por diversas sintonias e linguagens. Tudo isso faz do leitor de poesia um leitor mais exigente e participativo.

Não é raro ele ser o primeiro a perguntar e questionar determinada questão que está sendo debatida em um evento literário. Não é raro também ele se levantar, ir na frente de todos e ler um pequeno verso que escreveu. O leitor de poesia é, portanto, um poeta, enrustido ou consciente, mas ele é um poeta. Um ser apaixonado por poesia e flexível aos movimentos contemporâneos.

Diferente do leitor de prosa, ele consegue enxergar tendências, captar informações únicas e vivenciar momentos puros. O leitor de poesia também é um grande escritor. Machado de Assis, Hilda Hilst e o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, por exemplo, leram, escreveram e publicaram poesia, poesia de boa qualidade.

Machado lançou cinco livros do gênero. “Crisálidas” em 1864, seguido por Falenas (1870), Americanas (1875), Ocidentais (1880) e o excelente “Poesias Completas” (1901), que deveria ser lido por todo brasileiro poeta. Já Conan Doyle, lançou em 1898 “Songs of Action”. Depois vieram “Songs of the Road” (1911), “The Guards Came Through and Other Poems” (1919) e “The Poems of Arthur” (1922), títulos sem tradução para o português. Hilda Hilst superou os dois escritores ao apresentar aos seus leitores mais de vinte livros de poesia. Destacam-se “Do Desejo”, de 1992, e “Do Amor”, publicado sete anos depois, que apresentam uma métrica bem inovadora.

O leitor de poesia é um leitor exigente, que entra em contato com o poeta para questionar, dialogar e propor, exercendo a democracia, que está fortemente enraizada no conceito poético. Freqüentemente, passo por experiências desse tipo em eventos literários e debates sobre meu último livro, “Poesia não vende”. Leitores de várias partes do Brasil perguntam, enviam e-mails e querem saber de tudo. Percebi, nesses momentos, que o leitor de poesia é um leitor fiel as suas convicções, as suas idéias e paradigmas.

Dificilmente, muda de idéia. Na verdade, ele é um leitor fiel á própria poesia e ouvir que “poesia não vende” não é nada agradável. Mas, o poeta tem como função romper paradigmas. Então, é comum o leitor e o próprio poeta entrarem em contradição. Essa é a essência da poesia, essa é a essência da vida. O leitor de poesia é também um leitor sincero e transparente. Aplaude quando gosta de um trabalho, questiona quando se sente atordoado e lamenta quando suas expectativas não foram atingidas. É um leitor que odeia marketing, não gosta das superexposições de livros e foge das obras mais vendidas.

Ele quer novidades, quer descobrir novos poetas e quer compartilhar os seus momentos com poesias naturais, que não apresentem conceitos e idéias pré-concebidas pelo mercado editorial. Tudo isso faz do leitor de poesia um verdadeiro revolucionário, que não tem medo de sair ás ruas, ler boa poesia e promover encontros, a base de vinhos, palavras e sugestões. O leitor de poesia não teme o amanhã, sabe, aliás, que precisa ser parceiro do futuro e, que junto com ele, pode valorizar a poesia. O leitor de poesia não teme lutar contra a maré, não teme enfrentar o mercado editorial, não teme as conseqüências da valorização da poesia.

Aliás, luta por isso a todo instante, a cada dia, como se esse fosse um objetivo de vida, a principal das conquistas. Sabe que enfrenta obstáculos diários, tem consciência de que essa é uma luta sem fim e sem retorno imediato. Mas, sabe também que tudo tem um começo, tudo precisa de poesia. É graças a esses sentimentos e a esses leitores que a poesia persiste e vive, livre, leve e solta, em busca de patamares mais altos, de representatividade e, principalmente, de público, fiel ou não, adeptos ou não, poetas ou não.

O que importa é que a poesia seja lida, como se fazia antigamente nos bares, lares e escolas.

(*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles "Poesia não vende" e "Transroca, o navio proibido", que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor gaúcho Ricardo Zimmer.

domingo, 18 de maio de 2008

Marlene Lima, prestes a publicar seu primeiro livro de contos, manda a 1a. colaboração ao nosso blog. Pinçou da revista "Falando de Literatura"

"Não use palavras muito grandes no texto. Não diga 'infinitamente' quando você querdizer 'muito'. De outra forma, não lhe restarão palavras quando quiser falar sobre algo realmente infinito."
C.S. LEWIS

"Depois de ser rejeitado por várias editoras, ele decidiu escrever para a posteridade."
GEORGE ADE

"A arte não é só talento, mas sobretudo coragem."
GLAUBER ROCHA

"Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que poesia está contida nisso tudo."
DRUMMOND

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A VOZ DO ESCRITOR



"Minha linguagem é uma prostituta universal que eu tenho que transformar numa virgem" - KARL KRAUSS


Uma vez SAMUEL BECKETT, o mais austero dos escritores, comparou "escrever com estilo, essa vaidade...a uma gravata-borboleta em volta de uma garganta com câncer".


"Quando lemos Freud, escutamos um homem brilhante exibindo para nós todo o poder de sua mente. Ao comparar o ato de escrever à psicanálise, estou implicitamente afirmando que para um indivíduo encontrar sua voz própria como escritor, em determinados aspectos é como o caprichoso processo de se tornar adulto" ALFRED ALVAREZ.


"O caos, numa obra de arte, deve cintilar através do véu da ordem." NOVALIS


"Comecei o exercício terapêutico de expurgar da minha mente todos aqueles demônios aprisionados que aguardavam convocação para vir à tona." RALPH STEADMAN


A FIDELIDADE DAS COISAS

"A poesia de Zbigniew Herbert acrescenta à biografia da civilização a sensibilidade de um homem que não foi derrotado pelo século que empreendeu, da forma mais completa e eficiente, a desumanização da espécie humana.
A ironia de Herbert, sua discrição austera e sua compaixão, a lucidez de seu lirismo, a intensidade de seu amor pela antiguidade clássica, não são apenas ornamentos exibidos por um poeta moderno, e sim a armadura - no seu caso, de aço bem temperado e reluzente - de que um homem precisa para não ser esmagado pelas investidas da realidade.
Como não oferece a seus leitores concessões estéticas nem éticas, esse poeta os salva daquela pobreza que não serve tão bem a todas as formas do mal." JOSEPH BRODSKY

PEDRA

A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

- Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.

OBJETOS

Os objetos inanimados são sempre corretos e,
infelizmente, não se pode censurá-los por nada.
Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um
pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre
as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando
cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfio
que os objetos ajam assim com intenção
pedagógica, a fim de nos reprovar constantemente
por nossa instabilidade.

NO ARMÁRIO

Sempre desconfiei que a cidade fosse uma
falsificação. Mas só numa tarde nevoenta
no início da primavera, quando o ar cheira
a amido, que descobri a natureza da fraude.
Vivemos dentro de um armário, nas mais abissais
profundezas do olvido, em meio a varas quebradas
e caixas fechadas. Seis paredes pardas, as nuvens-
pernas de calças acima de nossas cabeças, e o que
até ainda há pouco julgávamos ser uma catedral
mas na verdade é apenas um sombrio frasco de
perfume evaporado.
Ó pobres noites, em que rezamos à passagem de
uma mariposa-cometa.

SUICÍDIO

Ele era muito teatral. Colocou-se diante do
espelho com um terno preto e uma flor na lapela.
Levou a arma até a boca, esperou até que o
tambor esquentasse e, olhando para seu reflexo
com um sorriso alheado, puxou o gatilho.
Caiu como um paletó lançado dos ombros, mas
a alma continuou em pé por algum tempo,
sacudindo a cabeça, cada vez mais leve. Então,
com relutância, ela penetrou no corpo, sangrento
na extremidade superior, no momento em que
sua temperatura estava caindo para o nível
térmico de um objeto, o qual - como sabemos -
é sinal de longevidade.

O texto do Brodsky e as poesias transcrevi da revista Piauí deste mês, pois achei-as de uma beleza espantosa, assustadora. Há outras igualmente tocantes.

domingo, 4 de maio de 2008

Tataraneto do Tolstoi mora aqui no Rio!

Pai, filho. Avô, neto. Bisavô, bisneto. Tataravô, tataraneto. A família anda tão desfragmentada... mas isso ainda existe.
Não é mentira, Vassia Tolstoi nasceu em Paris, e sua ascendência é russa e nobre, pois é tataraneto do conde Lev Tolstoi, autor de “Guerra e paz”, “Anna Karenina”, “A morte de Ivan Ilyich”, “A sonata Kreutzer”, etc.
Veio passar dois meses, está há dois anos, e aqui conheceu a carioca Daniela na pizzaria Guanabara às cinco da manhã, coisas de amor à primeira vista. Resumindo: casaram-se ao som de Clara Nunes em Santa Tereza. Moram entre o morro do Vidigal e a favela Chácara do Céu (subindo quatro lances de escada) numa casa avarandada bem no meio do mato. Querem mais? Tem um Fusca 70.

“O dinheiro representa uma nova forma de escravidão impessoal, em lugar da antiga escravidão pessoal” - frase do Conde num de seus contos, ”O dinheiro”- que resume a postura do tataraneto concernente a valores, certamente herdados da família.

Sua origem nobre vem com a czarina Catarina, que sobe ao trono com o apoio de Tolstoi. Por causa deste detalhe recebe dela o título de conde, um marco na vida do escritor. O título passou de Lev ao filho Nicholas, (bisavô de Vassia) poeta e músico cujo filho médico, Serge, foge para a França durante a revolução russa, e em Paris nasce o pai do rapaz de 31 anos , morador do Rio.

Vassia nunca trocou a amizade dos amigos plebeus pelo que restou da aristocracia européia com suas festas vips. Mesmo aqui, prefere “um samba na Mangueira do que beber champagne numa mansão no Leblon”. Herança do tataravô? Possivelmente, e foi assim desde criança. Só tomou consciência de sua origem aos catorze anos quando fez bagunça na aula de geografia. Como castigo a professora mandou que fizesse na semana seguinte um seminário sobre sua família, e aí a ficha caiu.

Foi à Rússia a primeira vez depois da queda do muro de Berlim, e levou um choque quando leu no jornal que estava no país. “Se te vêem apenas como um descendente de Lev Tolstoi, você não é ninguém”, disse.

Trabalhou como DJ, fotógrafo, quando “tinha contato com pessoas histéricas e estúpidas, com modelos anoréxicas tratadas como lixo, um drama, isso só para vender roupas”. Aí largou tudo: o dinheiro, as belas mulheres, a moda. Cansado de trabalhar como um louco, viajou para conhecer os parentes da mãe uruguaia, depois veio ao Rio, onde foi ficando. Como fotógrafo da Paris Match , tem um projeto próprio: publicar os retratos dos 700 freqüentadores do posto 9, em Ipanema, clicados num estúdio improvisado na praia, dentro da barraca de um vendedor de cerveja!

Por que esta matéria aqui? Primeiro, o cara é descendente de um gênio escritor, segundo, os tempos são outros, mas ele optou por ser ele próprio, optou por viver de acordo com os seus valores, renunciando a outros.
Isto é algum exemplo? É. Pois para escrever – um exercício solitário – você renuncia a muitas coisas, além de ler e ler e ler para se impregnar de boa Literatura, ou da má também, se tiver tempo. Escrever é cortar, para ir ao âmago da escrita.
Claro que há outros exemplos mais edificantes, mas este é sui-generis, um aristocrata que renuncia a Dior e batuca Martinho da Vila, pois foi batucando com dois talheres "Rosa do povo", de Martinho, que ele recebeu o repórter da Piauí, revista de onde veio este resumo.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

VENCEDOR DO PRÊMIO J. MINDLIN DE LITERATURA

Depois de quase cinco meses de espera, chegou a hora de o Brasil conhecer o ganhador da primeira edição do Prêmio José Mindlin de Literatura. Promovido pela Autêntica, em Belo Horizonte, o concurso recebeu cerca de 500 originais, inclusive de brasileiros que moram fora do País. Com adesão dos quatros cantos do Brasil, foi do interior de Pernambuco, de uma cidade chamada Vitória Santo Antão, a obra selecionada. Advogado por formação, Walther Moreira Santos é o ganhador do concurso apadrihado pelo bibliófilo José Mindlin e marco dos 10 anos de existência da Autêntica Editora, que passa agora a investir em obras de ficção. Em grande estilo, O ciclista, como é chamada a obra vencedora, será lançada pela Autêntica Editora na Bienal do Livro de São Paulo, na segunda quinzena de agosto, quando passará a ser distribuída em todo o território nacional.
A comissão julgadora do concurso foi composta pela editora e escritora Maria Amélia Mello, pela professora e escritora Maria Esther Maciel e pelo escritor Antônio Torres. Dedicados à avaliação das centenas de obras que receberam, o júri reuniu-se no dia 4 de abril para, juntos, na presença da diretora executiva da Autêntica Editora, Rejane Dias, da curadora da Biblioteca de Guita e José Mindlin,Cristina Antunes e do patrono da premiação, José Mindlin, escolherem o vencedor. De acordo com eles, a obra premiada se destacou das demais por “apresentar uma narrativa original, instigante e literariamente bem construída”.
Walther Moreira Santos é dramaturgo e ficcionista, vencedor de diversos prêmios literários e autor de 10 obras nos gêneros memória, teatro, romance e infantil. De acordo com ele, O ciclista “é uma história sobre perdão, apego e perda, que mescla sexualidade, budismo e psicanálise”. Ele conta que geralmente leva uns seis meses escrevendo um romance, mas considera O ciclista uma obra demorada, “construída palavra a palavra ao longo de quatro anos’.

terça-feira, 22 de abril de 2008

50 ANOS DE BOSSA NOVA

A Estação das Letras e o Museu da República promovem:

50 ANOS DE BOSSA NOVA

com Ruy Castro

O curso se dispõe a mostrar como a Bossa Nova, embora esteja de fato completando 50 anos em 2008, não nasceu magicamente na gravação de um disco, nem mesmo em uma boate, muito menos em um apartamento. Tratou-se, na verdade, de um processo que pode ter começado dez anos antes, e que era inevitável. Alguma coisa iria fatalmente acontecer à MPB naquela época - e que seria uma bossa nova do mesmo jeito, embora não talvez a Bossa Nova como a conhecemos. O curso revelará detalhes inéditos desse fascinante processo.

Durante as aulas serão tocados discos raros e gravações originais.

Dias: 12, 19, 26 de maio e 2 de junho, às segundas-feiras, das 19 às 21 horas.

Valor: R$ 220,00.

Local: Museu da República, r. do Catete n. 153, sala Multimídia.

Reservas: (21) 3237 3947

r. Marquês de Abrantes, 177 lj.107, Flamengo.