segunda-feira, 14 de abril de 2008

AFORISMOS DE KAFKA

Aforismos de Kafka

* A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar.


* O momento decisivo no desenvolvimento humano é um todo contínuo. É por isso que estão certos os movimentos revolucionários, que declaram nulo ou inútil tudo o que ocorreu antes deles, pois nada aconteceu ainda.


* Um homem se espantou com a destreza com que alcançou a eternidade. Não percebeu que retrocedera até lá.


* Não precisa sair de teu quarto. Permanece sentado à tua mesa e escuta. Não, nem mesmo escutes, simplesmente espera. Não, nem mesmo espera. Fica imóvel e solitário. O mundo simplesmente se oferecerá a ti, para ser desmascarado. Ele não tem escolha, e acabará rolando em êxtase a teus pés.


* “De aforismos, reflexões sobre o pecado, a dor, a esperança, e o caminho certo de Franz Kafka”; do livro “Contos, fábulas e aforismos”, tradução de Ênio Silveira; Ed. Civilização Brasileira
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sexta-feira, 11 de abril de 2008

PENSANDO

"Locke, no século XVII, postulou (e reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio.

Funes projetou certa vez um idioma análogo, mas o rejeitou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambíguo.(...) Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não lhe custava compreender somente que o símbolo genérico "cão" abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversas formas; aborrecia-o que o cão das três e quatorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). (...)

Tinha aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos."

"Funes, o Memorioso" (1956), Jorge Luis Borges.

CERTAS INCERTEZAS


Pollock tinha um método de pintar seus quadros: geralmente bêbado, deixava que seu inconsciente aflorasse de seus gestos para a tela, o que resultava em lindas pinturas abstratas. Depois, físicos descobriram que existia um padrão que se repetia em sua pintura, como nos fractais, objetos geométricos que se dividem em partes, cada uma das quais semelhante ao original.
Pollock é um exemplo de como alguns conceitos como incerteza, caos, acaso, mudam, e certamente irão se refletir na Literatura.
Leiam o artigo publicado na revista virtual "Cronópios" de fevereiro.

Affonso Romano de Sant'Anna

Leio que o português José Croca, acaba de ganhar o Prêmio Galileu de Física por apresentar argumentos teóricos e práticos que contestam o chamado "princípio da incerteza" de Heisenberg.

Não sou eu, e muito menos nos limites de uma crônica, quem vai lhes explicar o que é tal "princípio". O fato é que isto está ligado à física quântica fundada em 1900 por Max Planck. Depois vieram Einstein, Bohr, Heisenberg e muitos outros. E estabeleceu-se uma polêmica sobre o universo e o mundo subatômico. E da física passou-se à metafísica.

Ou seja: das especulações científicas sobre a "incerteza", o "acaso", a "probabilidade" e a "relatividade" passou-se para se concluir que a "incerteza" é que regula a história, a arte e a vida. Aí começou-se a agregar isto ao pensamento de Nietzsche que no final do século XIX demoliu algumas "certezas" filosóficas. E Nietzsche passou a ser uma espécie de filósofo quântico, que está na base do pensamento de Foucault, Derridá, Deleuze, Barthes e outros sofistas dos anos 60 que reafirmaram que não existe "verdade", que tudo são aparências, tudo é interpretação e deslizamento de sentidos. A filosofia e a teoria da literatura viraram algo quântico, um apêndice ou vulgata da física decretando que "tudo é relativo".

Constituiu-se no século XX uma ideologia da incerteza. O certo, ou seja, o politicamente correto, era o incerto. Assim como em cada língua as palavras, por exemplo, "cão" ou "árvore," são grafadas de formas diversas, passou-se a admitir que a verdade é arbitrária, deslizante, insituável. Adeus universo de causa e efeito. Então, Newton - o gênio que aglutinou todo o saber do século XVIII, passou a ser um tolo. Aristóteles, então, um primata. Até Einstein que não curtia totalmente a idéia da "incerteza" foi depreciado, só porque argumentou que Deus não joga dados com o universo.
O cara quente era Nietsche-Ecce Homo.


Realmente a física quântica dizia coisas desnorteantes: "um elétron ao mudar de órbita, desaparecia de uma e reaparecia instantaneamente na outra sem percorrer espaço intermediário". Era o famoso "salto quântico". Com isto, começamos a examinar o teatro de Beckett, a prosa de Joyce, a incertezas existenciais dos personagens, a pintura abstrata, a arte do caos. O mundo era mesmo um teatro do absurdo. Um jogo de dados gratuito como queria Mallarmé.

Já não se tratava daquilo que ocorrera ao tempo de Ptolomeu e Copérnico em que se discutia qual era o centro do universo. Agora a ciência, as artes e a filosofia vinham dizer que não havia centro algum. Convenhamos que isto faz qualquer um perder o norte.

A geração que se formou seduzida pelas teorias de Nietzsche, Foucault, Derridá e outros menores, se apaixonou tanto pela incerteza, que criou um novo credo, a certeza da incerteza. Isto virou uma religião, a religião de paradoxos insolúveis e de oxímoros paralisantes. O vazio pleno. O silêncio ruidoso. A indecidibilidade do dizer.

Essa descoberta do físico português, dá o que pensar. Pode ser mais uma passo na revisão do século XX, época em tínhamos tantas incertezas certas. Esse José Croca alega que o pensamento de Heisenberg impunha uma barreira ao conhecimento. "Mostrei que tal barreira não existe. Ou que podemos ir muito além dela. E que é possível explicar fenômenos tidos com misteriosos e inexplicáveis em termos causais. Não há fenômenos misteriosos em Ciência".

Já nos anos 70 a Teoria do Caos demonstrou que o caos não é caótico, que tem uma ordem. Se com a ciência conseguirmos alguns avanços lógicos, por contaminação, talvez o nosso cotidiano se torne menos incerto; e tanto a metafísica, tanto quanto a física, deixarão de ser, como dizia Borges, um ramo da literatura fantástica.




quarta-feira, 2 de abril de 2008

O QUE A NET PODE FAZER POR VOCÊ E VICE-VERSA

Trabalhos colaborativos não são uma novidade neste mundo velho sem porteira.
Várias práticas usam a mídia eletrônica na colaboração de projetos artísticos e culturais, projetos que usam a internet, a telefonia celular, o GPS, as redes wi-fi, dentre outros meios, e conseguem mobilizar um grande número de pessoas para colaborar, a produzir e a ter um posicionamento ativo na rede.

Na web, usamos a "nova"mídia de uma forma antiga: acessamos a internet como se estivéssemos lendo um livro, ouvindo um rádio ou conversando num café. Não a estamos usando, achamos que já conhecemos sua forma, e deste modo estamos confortáveis com o que sabemos dela. É como se estivéssemos sempre olhando através de um retrovisor, em vez de olhar para a frente.
Para que estas tecnologias funcionem a nosso favor, precisamos estar preparados para usá-las e a ser parte delas. Além de receptores, podemos ser produtores de informação.

Muitos projetos colaborativos já eram utilizados antes da internet e do celular:

FLUXUS e MAIL ART
O movimento Fluxus se baseou na formação de redes e na participação coletiva. Começou como um meio de troca de informação, depois virou um movimento de arte (música, performance, vídeo e arte conceitual). Havia festivais de performance fluxus, em que artistas faziam trabalhos experimentais. Era forte nos E. U. e na Alemanha, mas existia também em outros países europeus e no Japão. Como eram happenings, a audiência era participativa.
As redes criadas por fluxus conectavam sua comunidade internacional por telefone, fax, satélite, cartas, etc. Suas exibições não eram julgadas previamente e toda arte recebida deveria ser exibida.

Em meados dos anos 50, um americano começou a mandar seus trabalhos de design gráfico para muitas pessoas do meio artístico. Era o mail Art. Ele criou uma lista postal para distribuição de trabalhos, e daí formou uma comunidade artística em rede a que chamou de "N.Y. Correspondance School", (com um a em correspondence, para ficar como performance). A comunidade de artistas mandava trabalhos entre si, e assim intervinham e assimilavam o trabalho de formas diferentes.

Em 1971, um manifesto chamado NET foi publicado: era uma convocação de artistas para uma exposição não-comercial e não-hierárquica. Um dos pontos era que "A NET pode ser arbitrariamente desenvolvida e copiada" (isto já era uma forma de propagação de licenças de copyleft em arte).

Em suma, Fluxus e Mail Art estavam baseados na transformação, na experimentação, no uso de tecnologia, na criação de uma comunidade global, na temporalidade. Todos os projetos colaborativos artístico-culturais na internet foram incentivados por estes movimentos.

GUERRILLA TV

Começou no final dos anos 60 para democratizar a televisão. Objetivo: dar acesso às pessoas a produzirem programas de tv. Aconteceu nos E.U. quando a câmera de vídeo diminuiu de tamanho, ficou mais barata e quando algumas cidades foram interligadas por tv a cabo. Era um ponto de partida para uma mídia aberta e acessível.
Havia uma base política e comunitária. Estes produtores trabalhavam com direitos humanos, mas a maioria da população ficou de fora. O público era de universitários e de grupos da contra-cultura.
Depois vieram as rádios comunitárias, usando freqüências Fm e Am, difundindo programas pela e para a comunidade, um espaço aberto sem fins lucrativos e não-comercial, dando à comunidade o direito de falar e reclamar.
Hoje em dia também existem na rede as "net-rádios".

Exemplos de projetos abertos à colaboração do público:

Wikipedia (http://www.wikipedia.org/ )
Yellow Arrow (www.yellowarrow.net/ )
Vimeo (http://www.vimeo.com/ )
Youtube (www.youtube.com/ )
Flickr (http://flickr.com/ )
Fotki (http://www.fotki.com/ )
Mirror Project ,
Delicious (http://del.icio.us/ )
Recombo,
Mundo al revés,
Impossíveis,
Freesound,
Esc for scape.

WICKIPEDIA
Enciclopédia colaborativa online feita por voluntários com um número muito maior de artigos do que a Britannica e a Encarta. Alguns dos colaboradores são eleitos pela comunidade como administradores para manter o nível dos artigos.

DELICIOUS
Para organizar e guardar sites, compartilhá-los, colocando-os disponíveis a outros. Há categorias segmentadas por palavras-chave e etiquetas.

GLOBAL YELLOW ARROW
Projeto de intervenção urbana, em que os participantes são convidados a colar um adesivo de uma flexa amarela em lugares que lhes interessem. Podem mandar mensagens pelo celular com fotos de onde colocaram a flexa, e enviam-na como documentação para o site.
A função do Y.A. é apontar coisas e/ou lugares que chamem a atenção, que tenham algum significado. Desta forma as pessoas são encorajadas a prestar atenção em locais que normalmente nem notariam.

FLICKR e FOTKI
Sites que possibilitam uma livre publicação, distribuição, compartilhamento e arquivo de fotografias na internet. Projetos como estes facilitam a procura através de etiquetas, álbuns, links. São uma nova forma de informar visualmente, através de fotografias em sua maior parte, porém amadoras, mostrando o dia-a-dia.

YOUTUBE e VIMEO
Projetos similares a Flickr e Fotki, mas com vídeos. São sites que proporcionam um espaço para a divulgação e armazenamento de vídeos na internet.

Sem dúvida há uma banalização cultural, sem uma experiência formativa mais consistente, reduzidas a uma estética utilitária, fragmentada e pueril, em grande parte das vezes .
Mas a rede é um novo meio de comunicação, de rearticulação de processos, facilitando a cooperação e o compartilhamento. O usuário passa a responder online aos estímulos, recriando-os, como um roteador, pois não é mais um elemento em linha, mas em paralelo.

Agora também há um site que quer mudar a forma de como nos relacionarmos com os livros: o Booklamp.
Basicamente é um sistema de recomendação de livros. Você entra com o nome da obra, o sistema vai recomendando outras obras de acordo com os seus hábitos de leitura. A Amazon tem este sistema, mas o Booklamp tem um grande diferencial: os critérios são mais subjetivos e menos mecânicos. Entram nas preferências o estilo da escrita do autor, as características e os diálogos entre os personagens, a ambientação, etc.
Só existem 180 livros catalogados e em inglês. Mas já é um começo promissor.

terça-feira, 18 de março de 2008

ASSIM É, SE LHE PARECE

Oi, pessoal.
Boas novas.
O Centro Cultural da EMERJ, Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, e o Teatro da Justiça convidam: dois pontos, parágrafo.
"Assim é, se lhe parece" de Luigi Pirandello. Direção e Tradução de José Henrique. Com Suzana Faini, Tuca Andrada e outros.
Peça a ser apresentada em dia único, 25 de março de 2008, às 19h, com entrada franca. Após a apresentação haverá debate com Flora de Paoli Faria, prof. de Língua e Literatura Italianas da UERJ.
Os ingressos serão distribuídos ao público externo às 18h do mesmo dia.

EMERJ
Av. Erasmo Braga, 115 / 4o. andar. Centro.
(21) 3133 3366
(21) 3133 3368

quarta-feira, 12 de março de 2008

LANÇAMENTO DO LIVRO DE JOEL RUFINO



Ele estava, como sempre, elegantíssimo.
A livraria do Museu da República, lotada, todos comprando os livros para os autógrafos. Muita gente compareceu, inclusive Suzana Vargas e três dos alunos do professor Joel da Estação das Letras, além de outros que foram pela curiosidade por um título tão polêmico: "Quem ama literatura não estuda literatura".
O professor Joel é Doutor em História, escritor com mais de 50 livros publicados e um dos mais respeitados pensadores e estudiosos da cultura brasileira em nosso país. Ativista do Movimento Negro, foi presidente da Fundação Cultural Palmares. Foi indicado para o prêmio internacional Hans Christian Andersen, o Nobel infanto-juvenil.

Uma nota desagradável: publicado pela editora Rocco, o lançamento foi um sucesso de público, mas um fracasso no buffet, com apenas um garçon que serviu um parco coquetel. O meu querido professor Joel merecia um lançamento condizente com o seu charme, importância e simpatia.

sábado, 8 de março de 2008

novos blogs


Aí ao lado estão três novos blogs literários, diferentes entre si, mas com a mesma perspectiva.

Um é da Cláudia Lage, professora da Estação: A pequena morte e outras naturezas, livro seu que dá nome ao blog. Nele, há matérias que ela aborda com maestria, dicas de livros, textos seus, e em tudo você aprende a pensar Literatura.

O outro é da Adriana Lisboa, também professora (atualmente está nos States) tem um blog lindo, caquiscaidos, com músicas, dicas de livros, fotos, com textos que também te questionam sempre sobre o fazer literário.

Hoje chegou um de Salamanca, de um aluno da Estação, o Leonardo Villa-Forte, com textos seus, o garoto promete: catarsecontrolada.

Os três estão temperados, tanto no cravo como na pimenta, literatura de bom gosto.

Aproveitem.